Pular para o conteúdo principal

Conservadores e liberais, ou: a comédia social

Que o ser humano é inclinado a uma visão de mundo dual, maniqueísta e dicotômica – não é segredo para ninguém. Através da história, a sociedade tem sido permeada por essa visão de lados opostos – um comportamento inteiramente ligado ao funcionamento primitivo do cérebro, isto é, um comportamento natural. De tantos resultados disso, chama atenção a forte divisão moral que se estabeleceu entre os homens, a saber, a divisão entre conservadores e liberais. 

Por ser, como dito, "natural", é de se esperar que essa divisão seja acentuada em cabeças desprotegidas de autocontrole, auto-observação e consciência – pois são as que se deixam levar pelo que há de pré-estabelecido em si. Entre essas pessoas, que constituem a maioria da população, não se fala em outra coisa atualmente; para elas, hoje tudo é conservadorismo, liberalismo, esquerda, direita... É um tópico, sem dúvida, já cansativo, mas eu não podia me furtar a oportunidade de falar sobre, em vista de sua amplitude. 

Muito se pode dizer sobre esses dois grupos, esses dois lados opostos, direita e esquerda. O ponto que mais me interessa, que é o foco aqui, é a relação de dependência mútua do conservador e do liberal, uma relação não intuitiva em um primeiro momento. Sob o ponto de vista moral, o conservador quer manter o status quo, enquanto o liberal quer destruí-lo; este quer violar as tradições, aquele quer preservá-las. Porém, apesar das diferenças, a relação de dependência mútua dos dois é evidente quando se percebe que ambos trabalham juntos e com o mesmo propósito: depurar os valores morais. Por trás do embate, a direita e a esquerda, sem suspeitarem, buscam juntas e de mãos dadas exatamente esse mesmo objetivo; são ambas agentes em um processo de seleção artificial de valores morais. 

O conservador e o liberal são faces da mesma moeda no 'jogo dos valores morais'. É um jogo com regras simples: para cada valor moral uma moeda é lançada para o alto e, a depender da face que estiver para cima quando ela cair, soma-se um ponto ao valor; repete-se o processo; quanto mais pontos um valor moral tiver, mais adesão da sociedade ele terá. O que eles querem com esse jogo é reavaliar os valores que estabelecem o modo de operar da civilização. Na prática, a função do liberal é propor novos valores que possam substituir os valores vigentes, e a função do conservador é analisar as propostas. Como regra geral, o conservador tenderá a declinar, portanto caberá ao liberal, além de propor, convencê-lo. 

Como é de se esperar no mundo humano, com símbolos de toda sorte orbitando a mente, o processo pelo qual esse jogo se dá é caótico, orgânico e, frequentemente, violento. Os liberais, ao propor e tentar convencer, por vezes precisam ser agressivos, e os conservadores, negando as propostas de novos valores, respondem na mesma medida. No entanto, os valores da sociedade mudam, pouco a pouco. Os conservadores acabam, finalmente, por ceder diante dos valores que se provam ser de algum benefício para a civilização. Por meio desse jogo cômico, a esquerda e a direita encontram juntas os valores morais que regerão suas vidas. 

É difícil não se maravilhar com todo esse teatro armado para a depuração de valores morais, em que os atores, conservadores e liberais, desempenham inconscientemente seu papel. No lugar da razão, da lógica e do pensamento claro buscando melhores formas de se viver, unem-se esses dois grupos desequilibrados e, juntos, balanceiam-se e chegam a um consenso de como a sociedade deve prosseguir; para muitos deles, a razão de existência é esse trabalho que desempenham sem perceber. 

A manutenção desse ecossistema, com a simbiose do conservador e do liberal, só é possível porque esses homens se deixam dominar por suas inclinações naturais; não estão conscientes o suficiente dos próprios atos para terem controle sobre si. Essas inclinações nada mais são do que um filtro sobre a visão de mundo, que faz com que enxerguem os fenômenos de forma específica, isto é, de modo conservador ou liberal. São impossibilitados de analisar os fenômenos caso a caso; tomam poucos casos e generalizam de acordo com sua inclinação, consolidando assim sua visão de mundo. Têm, ambos, um bloqueio lógico. 

Todo homem inconsciente participa de um jogo sem perceber. O jogo de forças morais dos conservadores contra os liberais – um dos tantos jogos humanos – transforma a sociedade em um tabuleiro, no qual eles são as peças. Com o objetivo de depurar os valores, é um processo que tem funcionado até agora e até aqui, ao menos para essa gente. Mas é uma comédia que, a olhos vistos, tem cada vez menos graça.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ética e consumo de carne

Como todo texto sério deve começar, ainda que brevíssimo como este, vou definir o polêmico termo "ética", da forma como será usado aqui; assim dirimimos qualquer confusão. Ética é a análise, rigorosa ou não, das ações certas e erradas de um indivíduo ou grupo de indivíduos em relação a outro indivíduo ou grupo de indivíduos. Assim, "ético" como adjetivo pode ser tudo aquilo que é certo; e "certo" é o que tem o menor impacto negativo possível.

Análises sobre ética não podem ser feitas sobre os animais, visto que eles não têm opção de como agir e tampouco têm a capacidade intelectual para analisar o impacto de suas ações. Então, se um leão mata uma presa simplesmente para se divertir, não podemos julgar.

Ter a "capacidade intelectual para analisar o impacto de suas ações", neste caso, é ter a habilidade de enxergar através dos ollhos do outro e entender sua angústia. Isso é um exercício mental, que os animais, por mais inteligentes que sejam, não …

Aforensaio 7

O que é o Brasil? Eis uma pergunta que gostamos de fazer por muito tempo, mas agora nos mostramos a nós mesmos aflitos, sem a resposta. Essa aflição nos leva a perguntar, desesperadamente, a qualquer estrangeiro que aporte por aqui: "O que é este país? que espécie de país é este?", e estapeamos-lhes a face, reperguntando. Temos a esperança de que eles saibam como quem sabe de uma pintura ao se distanciar e ver o quadro todo; mas não olham esta obra, e mal sabiam de sua existência. Quando percebi que este estranhamento ante este país me tornava também um estrangeiro, refiz-me a pergunta, afastando-me do mapa (pendurado à parede como obra de arte), depois de aflito já tê-lo girado 180 graus; o que vi não foi senão um punhado de estados escolhidos à sorte, comprimidos à força entre si – como me mostravam trêmulas e duvidosas as linhas fronteiriças – numa tentativa desesperada de união, que nunca existiu.

A inesperada solução para a exploração trabalhista

Em face do estado de calamidade econômica pelo qual o Brasil passa, com 13 milhões de desempregados -- e tantos outros milhões que não entram nas estatísticas, por terem desistido de procurar --, é oportuno discutir a natureza do trabalho neste país. Precisamente, o que mais me importa aqui (como sugere o título) é o estado de vulnerabilidade em que se encontra o trabalhador que finalmente consegue o emprego que almeja. Para começarmos de fato, espero que, a esta altura, estejamos todos de acordo sobre isto: o ser humano age, na maioria das vezes, por incentivos, e melhorar sua própria condição de vida é sua grande busca -- em outras palavras, na maior parte das vezes suas ações visam a ganhar vantagem, a melhorar sua qualidade de vida (comparando com a condição logo anterior à ação tomada). No âmbito da vida na sociedade moderna e todos os benefícios que ela pode oferecer, a ação mais comum das pessoas é a livre associação que fazem entre si com o objetivo de gerar riqueza e partilhá-l…