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Mostrando postagens de 2017

Aforensaio 18

Após conhecer o mundo, a lagarta está pronta: esconde-se em seu casulo por um longo tempo – e torna-se uma borboleta. De sua metamorfose, as borboletas monarcas que nascem no outono começam logo sua migração anual de mais de 4 mil quilômetros. Milhares de borboletas deixam suas árvores e formam uma grande nuvem, dos Estados Unidos da América rumo ao México, no que se pode chamar de um dos mais belos espetáculos da natureza. Mas a borboleta que saiu não chegará ao seu destino; ela terá uma filha no caminho, que continuará sua jornada. Mas tampouco esta filha chegará ao destino da mãe; ela também terá uma filha. Após três gerações e muitos meses de viagem, a filha da filha da borboleta que começou a migração chega ao destino e tem uma filha, e então morre. Sua filha logo parte do México rumo aos Estados Unidos da América e, dada a sua vitalidade incomum, consegue percorrer os 4 mil quilômetros de volta, até chegar exatamente à mesma árvore que a mãe da mãe de sua mãe deixou um dia. Então

Aforensaio 17

A criatividade está no cerne da ciência. Grandes descobertas científicas foram antes grandes hipóteses, formuladas por mentes criadoras. É possível dizer, portanto, que o cientista também faz arte. No entanto, é a natureza quem  critica suas obras – e precisamente aqui reside a diferença entre o artista e o cientista: este aceita críticas.

Conservadores e liberais, ou: a comédia social

Que o ser humano é inclinado a uma visão de mundo dual, maniqueísta e dicotômica – não é segredo para ninguém. Através da história, a sociedade tem sido permeada por essa visão de lados opostos – um comportamento inteiramente ligado ao funcionamento primitivo do cérebro, isto é, um comportamento natural. De tantos resultados disso, chama atenção a forte divisão moral que se estabeleceu entre os homens, a saber, a divisão entre conservadores e liberais.  Por ser, como dito, "natural", é de se esperar que essa divisão seja acentuada em cabeças desprotegidas de autocontrole, auto-observação e consciência – pois são as que se deixam levar pelo que há de pré-estabelecido em si. Entre essas pessoas, que constituem a maioria da população, não se fala em outra coisa atualmente; para elas, hoje tudo é conservadorismo, liberalismo, esquerda, direita... É um tópico, sem dúvida, já cansativo, mas eu não podia me furtar a oportunidade de falar sobre, em vista de sua amplitude.  M

Aforensaio 16

Vivemos a época em que a tecnologia se tornou uma esperança, uma promessa – e eis por que ela está tomando o lugar de Deus. Hoje, já há quem chega a acreditar que será imortal pela tecnologia, que a Morte, essa doutora, não cortará a singularidade de sua singularíssima pessoa...

Aforensaio 15

Nada influencia mais a história da humanidade do que matar e dar vida. Por questões logísticas, esses homens que querem influenciar o mundo, como uma necessidade homérica de marcar-se na história, escolhem a primeira opção.

Aforensaio 14

Há uma espécie cômica de proteção, do homem que sente vontade de proteger tudo o que é inferior , como um altruísmo desmedido – mas é precisamente com esse comportamento que ele torna tudo e todos cada vez mais inferiores, à medida que os protege – e assim se torna superior ele mesmo.

Aforismo 8

Os fortes, com frequência, disfarçam-se com a máscara pesada da fraqueza – é seu exercício favorito, é assim, carregando esse peso, que se tornam mais fortes.

Aforensaio 11

É dito ao homem: "Estás livre agora". Mas a chave de sua prisão está do outro lado da porta, além de seu alcance. Então ele escuta novamente – "És um homem livre agora". A voz não mente, assim está escrito. A liberdade do homem é garantida como lei. Mas qual é o valor das palavras diante da porta que se recusa a abrir?

Aforensaio 10

Os homens sentem necessidade de dar um sentido humano a tudo, de tornar a própria realidade uma fábula, com personagens seguindo suas motivações e uma trama de fundo – pois assim conseguem  entender  o mundo. “Sem nós, por que existiria o Universo? quem assistiria a uma estrela morrer e ao fabuloso espetáculo nebulosa? quem seguiria os quasares?...” E como se não bastasse personificarem-se a si mesmos – personificam o próprio Universo, dando-lhe defeitos, dizendo: “Somos frutos da vaidade do Cosmos – nascemos para contemplar sua beleza”. Para eles, uma pedra não pode ser apenas uma pedra, ela deve ter um sentido, um propósito.

Aforensaio 9

Os homens refletem sobre o livre-arbítrio e chegam à conclusão de que ele não existe – mas não é livre no homem ao menos essa parte que reflete? “É a maior das prisões!”

Aforensaio 8

O Sol nasceu  –  e com ele novos conhecimentos, uma nova sabedoria; mas cuidado com o estudo  – e studo é cativeiro  –; q uando fores solto, a natureza pode ser demasiadamente selvagem e tu, pobre animal amestrado, não conseguir caçar.

O que é a justiça?

A humanidade tem seguido sua história de aperfeiçoamento, que nos últimos anos se provou ser exponencial. A cultura é por onde se dá esse processo, armazenando as informações dos erros e dos acertos ao longo do tempo, como uma grande mente coletiva. Viver mais e melhor é o objetivo, respeitando as liberdades individuais. O estudo, a análise e o pensamento crítico, cada vez mais disseminados em nossa sociedade, são as ferramentas básicas que usamos para conseguir o que temos hoje. No entanto, algumas importantes áreas da vida humana tiveram poucos avanços. O sistema judiciário – que aqui frequentemente chamarei apenas por justiça – é uma dessas áreas. Dito isso, este breve ensaio pretende ser uma pequena contribuição para a justiça. O sistema judiciário é uma forma organizada e sofisticada de vingança, por meio da aplicação de punição. Inevitavelmente, falar em justiça é falar em punição. Através da história, os avanços da justiça se concentraram apenas na forma como a punição é ex

Aforensaio 7

O que é o Brasil? Eis uma pergunta que gostamos de fazer por muito tempo, mas agora nos mostramos a nós mesmos aflitos, sem a resposta. Essa aflição nos leva a perguntar, desesperadamente, a qualquer estrangeiro que aporte por aqui: "O que é este país? que espécie de país é este?", e estapeamos-lhes a face, reperguntando. Temos a esperança de que eles saibam como quem sabe de uma pintura ao se distanciar e ver o quadro todo; mas não olham esta obra, e mal sabiam de sua existência. Quando percebi que este estranhamento ante este país me tornava também um estrangeiro, refiz-me a pergunta, afastando-me do mapa (pendurado à parede como obra de arte), depois de aflito já tê-lo girado 180 graus; o que vi não foi senão um punhado de estados escolhidos à sorte, comprimidos à força entre si – como me mostravam trêmulas e duvidosas as linhas fronteiriças – numa tentativa desesperada de união, que nunca existiu.

Aforensaio 6

A mitologia da Grécia antiga é a que mais impressiona, por ser reflexo de sua política, isto é, mutável, contínua. Ou será o contrário? Nesse caso, sua política um reflexo de sua mitologia – isto é, falsa. Então colocamos em dúvida toda a filosofia grega, porque baseada na política, dos animais políticos – as palavras usadas pelos filósofos gregos foram tiradas do vocabulário político, e isso já seria suficiente para a má-influência. Sim, nós colocamos verdadeiramente em dúvida – nós homens apolíticos.

Aforensaio 5

Os deuses, como disse sabiamente um filósofo antigo, são feitos à imagem e semelhança dos homens. Eu acrescentaria que os deuses são feitos também à necessidade dos homens. Por exemplo, os deuses indianos geralmente têm quatro braços, quatro mãos – para o trabalho.

Aforensaio 4

Estamos com sono, mas não conseguimos dormir; tentamos todos os novos métodos, mas é tanto o sono! Teremos que voltar aos primórdios e contar cordeiros – um a um sendo sacrificado em nome de Dionísio... Mas há algo nessa contagem que atormenta ainda mais nosso descanso: “Chegará o dia em que os cordeiros sacrificarão os lobos!, e farão vestes com suas peles.” Então o sono, porque conseguimos conviver com essa imagem, é acalante – podemos aceitar os cordeiros em pele de lobo. Ao acordar, percebemos que – são os pastores quem segue as ovelhas.

Aforensaio 3

Corremos o risco de pegar a mosca e, com as mãos fechadas, não conferi­-la por medo da fuga – e anunciar a todos sua captura: "Estava em minhas mãos", convencemo­-nos-­lhes. Apenas um santo, as mãos perfuradas, não arriscaria.

Aforensaio 2

"Eu  gostava  disso  –  agora  não  mais  gosto!  sou,  portanto  (assim  concluí  em  meu  coração),  um novo,  melhor,  mais  bem-­aventurado  homem;  eu  mudei",  assim  diz  o  tolo.  Seu  gosto  mudou, disso não há dúvida, está mais velho e maduro, e pode-­se dizer que melhor – mas mudou ele? teria sua personalidade fundamental mudado apenas pelo seu gosto? Pois não! como – peço que respondais sem pestanejar – pode um homem mudar? “Mas mudou também minha face!", pois sim! está mais velha, eu sinto muito. O tolo degusta outros sabores, mas seu paladar continua o mesmo – e talvez continue sendo assim enquanto não mudar seu gosto por si.

Aforensaio 1

Somos os primeiros a conseguir representar o presente como futuro ou passado; nosso próprio corpo parece­-nos muito velho ou muito novo, de acordo com o tempo em que nos colocamos. Quando muito velho, não podemos conter o riso, achamos graça. Verdadeiramente já não conseguimos levar algo a sério, nada mais importa, tudo é uma sátira de uma sátira, um erro baseado em outro erro – um fractal de erros. Todo esse riso em voz alta, essa gargalhada ressoante, pode entristecer: já não é mais cômico, é ridículo. O que uma vez foi motivo de riso, agora é motivo de choro. Tudo o que se coloca de forma cômica destrói; todo riso é niilista. Quando percebemos – há algo de seriedade então, mais uma vez, algo pode ser, novamente, levado a sério! – a Comédia.

O fim do romantismo

Se a história humana pudesse ser separada em apenas dois momentos, para mim não há dúvida de que seriam a era romântica e a era não romântica. A era romântica constituiu a maior parte da história até agora, ainda podemos vê-la por quase toda parte; de fato, em escala histórica nós acabamos de adentrar a era não romântica. Por isso, é de se esperar que nossos modos insistam em querer ser românticos, é uma questão de hábito. Mas, cada vez mais, mesmo os mais tardios dos homens perderão seu romantismo; serão, pouco a pouco, homens de seu próprio tempo -- homens modernos, o tempo da tecnologia. O modo de viver, o modo de pensar e o modo de agir são inteiramente novos. Em poucas palavras, estamos deixando de ser ingênuos (pois isso é ser romântico). Olhamos para o passado com um belo sorriso malicioso; olhamos para nossos pais e rimos. Somos frutos de uma estranha e assustadora época... Mas, de novo, ainda insistimos com o romantismo; algo em nós gostaria de ter participado de toda aquela