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Aforensaio 18

Após conhecer o mundo, a lagarta está pronta: esconde-se em seu casulo por um longo tempo – e torna-se uma borboleta. De sua metamorfose, as borboletas monarcas que nascem no outono começam logo sua migração anual de mais de 4 mil quilômetros. Milhares de borboletas deixam suas árvores e formam uma grande nuvem, dos Estados Unidos da América rumo ao México, no que se pode chamar de um dos mais belos espetáculos da natureza. Mas a borboleta que saiu não chegará ao seu destino; ela terá uma filha no caminho, que continuará sua jornada. Mas tampouco esta filha chegará ao destino da mãe; ela também terá uma filha. Após três gerações e muitos meses de viagem, a filha da filha da borboleta que começou a migração chega ao destino e tem uma filha, e então morre. Sua filha logo parte do México rumo aos Estados Unidos da América e, dada a sua vitalidade incomum, consegue percorrer os 4 mil quilômetros de volta, até chegar exatamente à mesma árvore que a mãe da mãe de sua mãe deixou um dia. Então ela tem uma filha – e morre. Sua filha também logo começará uma jornada rumo ao México, mas é a filha de sua filha quem chegará a seu destino. As borboletas monarcas reinam em um castelo, uma construção sinuosa que emociona aquele que por algum tempo atenta para seus detalhes, perguntando-se: "Por quê?". Enquanto as borboletas monarcas continuam o ciclo infinito em que estão presas, Zhuangzi, do outro lado do mundo, dorme. Zhuangzi sonha que é uma borboleta. Quando acorda, pergunta-se a si: "Estou diante do maior problema de minha vida: sou um homem que sonhou ser uma borboleta, ou uma borboleta que está sonhando ser um homem?".

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